terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A arte da leitura - cont.

Houve um tempo em que eu não queria mais ouvir, ver, sentir. Tempo em que o mundo me pareceu totalmente inadequado, ou ele, ou eu!
Fiquei tateando o universo, cega, surda, absolutamente dormente  de meus sentidos...
Conheci o vácuo, a aspereza de se estar aqui e ter que ficar!
Estava cheia de "verdades", de certezas, de imutabilidade.
Somos formados assim!
Nas escolas, nossa alfabetização é direcionada a moldar. Aprendemos, principalmente, a sermos massa fácil de se moldar...
Muito mais fácil para quem molda, nossos professores e, muito mais cômodo para nós, os moldados.
Na faculdade, direcionada a transmitir "verdades imutáveis" e principalmente, inquestionáveis, a única cadeira que nos daria a possibilidade de questionar, ou de pensar, é uma cadeira que para a grande maioria dos estudantes é "natimorta", a filosofia.
Os mestres fazem de conta que ensinam, os alunos que aprendem.
Por que professores iriam permitir alunos polêmicos, no real sentido da palavra, se não existe mais tempo, nem espaço para discussões que poderiam mudar alguma coisa?
Por que alunos quereriam entrar em choque com ideias pré-concebidas se é tão mais fácil, seguir as regras, tirar boas notas, pegar o canudo...E, depois, seguir...
Para entrar no mundo da filosofia, penso que, primeiro é preciso querer amar. Para amar há que se ter tempo, tempo para reciclarmos informações, conceitos...Tempo para termos coragem de quebrarmos o nosso molde e, começarmos tudo de novo.

Hoje fico por aqui!
Com amor para vcs
Fátima Alegretti





Fátima Alegretti

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A arte da leitura...

Já coloquei nesse blog que sou melhor leitora do que escritora...
No Direito, como advogados,  acreditamos que devemos saber escrever, expor bem claramente nossas ideias e, principalmente, encontrar uma maneira de convencer, através da escrita, o nosso alvo principal de que temos razão, o Juiz!
Normalmente é o que ocorre em todas as profissões, estamos sempre tentando convencer alguém de alguma coisa... Arquitetos tentam convencer de que podem fazer o belo, fisioterapeutas de que sabem manejar um corpo, médicos tentando convencer seus pacientes de que podem com algo, sobre o qual, não possuem o mínimo poder...A vida.
Nossa leitura, então, torna-se direcionada à convencer, lemos para convencer.
Lemos para convencer de que sabemos, de que conhecemos, de que somos eruditos e assim, a leitura passa de um fim em si, para um meio...
Num  país capenga em sabedoria, não fica tão difícil enquadrar-se no status de intelectual ou (e) erudito, basta, na grande maioria das vezes, citar alguns nomes clichês, ler ou dizer que leu alguns escritores "polêmicos", detestar outros, que são detestados pela intelectualidade do país e pronto!
Ouço muito falar da arte da escrita, mas pouco se fala da arte da leitura...
Saber ler é uma arte, pouco conhecida, pouco difundida e muito mal entendida.

Fátima Alegretti

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Cronicamente musical

   
              Para Frans, Amélia e Sarah.

1º  movimento
“A crônica é a canção da literatura,” diz com propriedade o excelente cronista e grande conhecedor de música erudita Artur da Távola.
Quem sabe aí, pra mim, uma explicação? Através da crônica, uma tentativa de compensar minha mais antiga frustração: a de ter abandonado, muito cedo ainda, a música, embora eu precise dela, na vida, como preciso da água, do ar.
Quando nascemos com um dom e o abandonamos, muitas vezes por descaso ou descuido, mais cedo ou mais tarde a própria vida se encarrega de nos cobrar ou de nos mostrar que se padecemos do desconforto crônico, parecido ao de caminhar com sapatos  apertados ou  folgados, é porque, de uma forma ou de outra, nos desviamos do caminho que nos fora predestinado.
Mas a vida não é madrasta, ao contrário: é mãe e generosa, sobretudo no campo da arte, permitindo-nos encontrar outras formas, outros canais de expressão, onde podemos - como atores ou simples espectadores - suprir ou preencher essas lacunas.
Sempre que a vida (e muitas vezes de forma surpreendente) me oferece, como simples espectador, faço valer e tiro o maior proveito de toda e qualquer oportunidade de entrar em contato com a verdadeira arte.
Em tempos onde a mesmice e um certo ritmo alucinante têm sido quase a tônica, rareiam-se cada vez mais as oportunidades de contemplarmos com calma e vibrarmos, de fato, diante de uma obra de arte.
Pelos menos comigo tem sido assim, e quando acontece acabo sempre e inevitavelmente me emocionando muito e até indo às lagrimas. Com música, então! Por isso, talvez, a vontade de compartilhá-las
Estava na Bélgica, em junho de 2010, visitando amigos queridos, pessoas simples, de hábitos simples mas de sensibilidade incomum, que me surpreenderam com um convite inusitado: assistir ao concerto “A Missa Réquiem” de Verdi.
Nunca tinha assistido e desde o início, tamanha era a magnitude do concerto, em todos os aspectos, que não resisti e, totalmente arrebatado, deixei as lagrimas caírem em abundância durante quase todo o espetáculo. Sim: ESPETÁCULO! Um verdadeiro monumento musical, porque impressiona, sobretudo pelo seu caráter espetacular
Uma maravilhosa heresia musical, numa espécie de ópera religiosa composta para orquestra, coral e quatro vozes: Soprano, Mezzo soprano, Tenor e Barítono.
A Ópera Real da Valônia, (região da Bélgica) na cidade de Charleroi,  lotada, com duas mil pessoas assistindo e - pasmem! - no mais absoluto silêncio, só interrompido pelos aplausos efusivos e ovações, merecidos e intermináveis, no grande final.
2º  movimento
Com um desdobramento emocional tão intenso quanto, mas diferente daquele provocado pela musica de Verdi, um outro momento musical, num pequeno “espetáculo privado”, quando  escutava, em casa, música cigana que eu havia trazido da Hungria e que registrei na forma do pequeno texto poético a seguir:
Uma velha canção cigana, um noturno.
Bem no extremo sul do continente americano, noite alta, já,  e uma  lua cheia, vestida de gala,  dançava solta no céu, cobrindo uma generosa fatia de mar com uma espécie de longa cauda, tecida em cetim prateado. Um momento de rara beleza, mais que um complemento, o contraponto perfeito ao sentimento de infinita tristeza.
No ar um forte e doce perfume de manacás em flor. Na pele o toque da brisa; na língua um gosto suave e salgado de maresia... e lágrima: mas  na medida em que a música invadia o espaço sonoro, aos poucos, como num passe de mágica, tudo que era triste foi desaparecendo, dando lugar a um estado de puro e absoluto encantamento.
A linha do horizonte, esticada, tensa, bem definida e levemente arqueada, separando céu, mar e continentes, era a corda única e bem afinada do violino do jovem virtuose cigano, perdido entre as montanhas de algum país da Europa Central, que executava e cantava, com alma e paixão, uma bela e triste canção que falava de estradas sem fim e de pessoas que vêem o propósito de suas vidas somente no amor e na música.
No final, um som em forma de lamento saído do fundo da alma, alcançou o violino, desprendeu-se, subiu, atravessou os céus, ecoando, espalhando-se pelo firmamento em ondas sonoras e harmônicas, até alcançar a mais recôndita galáxia, despertando  para uma pequena pausa no seu sono eterno o compositor magiar, húngaro, que reconheceu, gratificado, naquele som que o despertava, a última frase musical de uma de suas mais belas composições .
 Lá  na terra, no pólo oposto ao do jovem cigano, onde a lua cheia refletida no mar era soberana, um único espectador, também de alma errante, completando o elo entre os dois pólos e  prestes a chorar uma tristeza do tamanho do universo, aplaudia de pé aquela rara serenata, transbordando com a sensação da imensidão, da grandeza e da infinita beleza, que o inundou e o resgatou, qual lanterna dos naufragados. 

                                                                                  Carlos Grassioli.